Sabedoria para o exercício do Design

Escrito por Diego Reis


Certa vez ouvi uma breve história bastante marcante, narrada por uma pessoa que desperta grande respeito e admiração. Algum tempo depois, ouvi novamente, de outras pessoas, com algumas modificações e acréscimos, assim como toda narrativa transmitida oralmente.

Alguns atestam sua veracidade, inclusive atribuindo, o ocorrido, a personagens famosos e presentes no imaginário coletivo. Acredito que o mais importante é prestar atenção em seu conteúdo, e sua capacidade de provocar reflexões: Trata-se de um evento pitoresco, ocorrido supostamente em um passado recente, e que tem tudo a ver com o cotidiano de muitos profissionais criativos.

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Em uma manhã de outono, o artista acordou cedo para organizar o ateliê, pois havia combinado anteriormente em elaborar um retrato de uma figura considerada influente na cidade. Sentia-se um pouco receoso, já que o alertaram de que, uma das características desta senhora, era sua indesejada avareza.

Algum tempo depois ouviu a campainha, e como já era de se esperar, foi comunicado pela empregada da visita ilustre. Já no ateliê, depois de realizar os cumprimentos e ponderações, o artista pediu para a senhora sentar em uma cadeira estrategicamente posicionada (para receber a luz do sol da manhã em contraste com a iluminação artificial do ambiente). Com a pose já definida, e em profundo silêncio, o retrato era aguardado com grande curiosidade por parte da personagem. Ela fica impressionada com tamanha agilidade do artista em conduzir o traço no papel, de maneira muitas vezes teatral. Mas surpresa mesmo, sentiu-se ao receber a confirmação do término do trabalho, algo que durou menos de dez minutos.

No entanto, o resultado final superou suas expectativas, era esplêndido e original. Sua intuição, de uma senhora respeitada por seu conhecimento e sensibilidade artística, dizia que aquele trabalho seria atemporal e digno de grandes colecionadores e galerias respeitadas.

Assim que voltou de seu momentâneo transe, e tomada por uma racionalidade súbita, a senhora perguntou ao artista o valor da obra. Segundos depois de ouvir o preço, e se sentir insultada com um número tão elevado, procurou manter a postura. Com um sorriso sarcástico, perguntou o porquê de uma valor tão alto para algo que não havia levado dez minutos para ser criado.

Com sua sagacidade e desenvoltura habitual, o artista afirmou que a senhora estava enganada. O trabalho não nasceu em apenas dez minutos, mas levou uma vida inteira para ser concebido.

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Assim como eu, você já deve ter ouvido esta história, transmitida com algumas modificações, mais sem perder a sua essência. Como afirmei no início deste artigo, não importa se é verídica ou não ou se ocorreu com alguém famoso. Seu valor está justamente em mostrar que um artista, em qualquer área, é um eterno curioso. O resultado de seu trabalho deverá ser avaliado não apenas pelo tempo de execução, já que talento, criatividade e originalidade, assim como as sabedorias populares, são atemporais.

Sobre o Autor

Diego Reis é Designer e mestrando em Antropologia do Consumo. Criador e editor chefe do Logotomia.

Imagem da capa: Jenni Holma (adaptada)

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